Como tudo começou...

Inspirações
Seguindo o caminho de outras obras do autor, Tintim e a Alfa-Arte teve inspirações em alguns casos e pessoas reais. Para contar a história do suposto mago Endaddine Akass e seu comparsa, o falsificador Ramo Nash, Hergé se lembrou de um caso que ganhou destaque na década de 60: Fernand Legros (1931-1983), comerciante de arte, vendia as falsificações do artista húngaro Elmyr de Hory (1906-1976) a galerias do mundo inteiro. Para enriquecer a trama, o autor incorporou um segundo elemento: uma seita e um falso guru. Martine Vandezande, a moça que trabalha na Galeria Fourcart, parece ter sido baseada na aparência da cantora grega Nana Mouskouri. Seu sobrenome parece ter sido retirado do nome de uma editora, "L'imprimeur Vandezande", que publicou um calendário de Tintim em 1946. Como você já viu aqui, outra personagem que teve inspiração na vida real foi a Sra. Laijot, que aparece na página 21. A velha rabugenta que trabalha na contabilidade da Galeria Fourcart foi baseada numa colaboradora de Hergé de personalidade igualmente forte, a colorista Josette Baujot, falecida em agosto deste ano (saiba mais aqui).
O que revelam os esboços
Uma das ideias de Hergé para a nova aventura era trazer de volta o vilão Rastapopoulos (que fora abduzido por alienígenas em Voo 714 para Sidney), mas segundo Harry Thompson, ele desistiu da ideia em 1980, quando introduziu o elemento "alfa-arte" - a arte com o alfabeto. Ainda assim, existe uma suspeita de que o vilão Ramo Nash, ou seu cúmplice Endaddine Akass, possa ser Rastapopoulos em mais um de seus disfarces - vale lembrar que ele já havia feito isso, em Perdidos no Mar, quando usou o nome de Marquês de Gorgonzola.
Analisando os diferentes esboços, é possível ver que as cenas no Castelo de Moulinsart foram reduzidas, talvez em favor do equilíbrio da história. No manuscrito original, Tintim, Milu e Haddock não vão para Ischia até a página 31.
Outra característica interessante em Tintim e a Alfa-Arte é o destaque que se dá a Martine Vandezande. Ela é uma das poucas mulheres a ganhar mais espaço num álbum, e a única (além de Castafiore), a ter mais de 5 falas em toda a série de histórias de Tintim. Além disso, a cena que envolve a Sra. Laijot foi marcada para um possível corte - isso é indicado pela inscrição "20 bis" no manuscrito original, o que significa uma página 20 adicional.
Muitos acreditam que o objetivo de Hergé era literalmente colocar um ponto final em Tintim - o autor teria, aparentemente, brincado com um amigo a este respeito. Mas a julgar pela página onde acontece a cena (42), é fácil concluir que não era esse seu objetivo, ainda havia muita história para se desenrolar (já que os álbuns de Hergé têm em média 62 páginas). Vale lembrar também que inúmeras vezes o heroi esteve à beira da morte, mas sua sorte peculiar sempre aparecia nas horas certas. Endaddine Akass ser mais um disfarce Rastapopoulos, o eterno inimigo de Tintim, também é incerto. Não só por ele ter "sumido" na aventura anterior, mas também pela falta de qualquer semelhança física com o mago. Se Tintim e a Alfa-Arte seria realmente a última aventura de nosso destemido repórter, nós nunca vamos saber, porque esse segredo foi guardado até o fim por Hergé.
Hergé morre - o que fazer com o álbum inacabado?
Com a morte de Hergé, em março de 1983, surge a questão: o que fazer com o álbum, já que não foi finalizado pelo seu autor - deve ser concluído, publicado em sua forma atual, ou simplesmente esquecido?

Depois de alguns meses, porém a sra. Remi teria sido convencida por Benoît Peeters, um dos maiores conhecedores da obra de Hergé, que De Moor não seria a esolha correta para os trabalhos sobre o álbum. Além disso, havia o fato de o próprio Hergé, mesmo reconhecendo que seus colaboradores estavam ainda mais talentosos do que ele, declarou publicamente que só ele poderia dar vida ao personagem - "Tintin c'est moi!", exclamou. Por isso, Fanny Remi voltou atrás, deixando Bob de Moor frustrado.
Uma equipe de especialistas foi convocada para o trabalho de edição, dentre estes Michel Bareau, Jean-Manuel Duvivier e Benoît Peeters. Eles selecionaram as páginas que formavam uma narrativa mais coerente. Peeters decidiu deixar de lado a página que revelaria a verdadeira identidade do vilão Endaddine Akass - a fim de criar o mito que Hergé teria levado esse segredo para o túmulo.

Das páginas 4 a 42, era possível conferir desenhos num estado ainda muito primário, complicado para o leitor comum. A maioria dos fãs ficou desapontada com o resultado, primeiro por causa do preço muito mais elevado do que outros álbuns, e também pela qualidade do conteúdo - o roteiro era completamente inconsistente e o final frustrante.
Todos querem sua própria versão...
Com a decepção causada pela primeira versão oficial do álbum, várias pessoas decidiram fazer sua própria conclusão da história. Algumas apenas para ganhar dinheiro nas costas dos fãs frustrados, outras simplesmente pela paixão. Na segunda parte do nosso especial, você vai conhecer algumas dessas versões, além de outras curiosidades sobre a evolução da Alfa-Arte...