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09 dezembro, 2015

Tintim no Cinema: O Templo do Sol

Tintim e os Prisioneiros do Sol (Tintin et le Temple du Soleil) foi o primeiro longa-metragem em animação tradicional inspirado nos personagens de Hergé. Tendo como base o álbum "O Templo do Sol" (e parte de "As 7 Bolas de Cristal"), o filme foi produzido em 1969 pelos estúdios Belvision e Dargaud-Films. Com aproximadamente 77 minutos, a co-produção franco-belga foi dirigida por Eddie Lateste e produzida por Raymond Leblanc.

Capa da revista Tintin de 23 de dezembro de 1969. Fonte.
Sinopse

Uma maldição Inca atinge 7 exploradores que invadem a tumba de Rascar Capac. Quando o Prof. Girassol comete o sacrilégio de usar o bracelete da múmia, acaba sendo sequestrado e levado para o Peru. Tintim, Milu, Haddock e os detetives Dupond e Dupont viajam à América do Sul em busca do Templo do Sol, para onde ele foi levado. Com a ajuda de Zorrino, um jovem nativo, eles tentarão resgatar o amigo, mas terão que escapar do sacrifício no Templo do Sol.


Histórico

Tintim estava perdendo espaço para Asterix, que em dez anos já ocupava o primeiro lugar nas vendas de álbuns. Para alavancar o sucesso de Tintim, Hergé fechou com a Belvision, de Raymond Leblanc, para a produção de dois longas animados para o cinema. A essa altura, o estúdio já acumulava experiências positivas com os longas animados do próprio Asterix, bem como a série de desenhos animados baseados nas aventuras de Tintim (incluindo "O Caso Girassol"). O estúdio desenvolveu melhores técnicas de animação, contando com uma equipe de cerca de 300 profissionais, entre eles colaboradores de Hergé, como Bob de Moor.

Hergé, Raymond Leblanc e uma maquete do Templo do Sol.
Foto: Fondation Raymond Leblanc
Segundo Benoît Peeters, no livro "Hergé: Filho de Tintim" (Verbo, 2007), o criador do repórter estava cético, porque sabia que seu estilo gráfico era mais difícil de animar do que o de Uderzo. Mas não queria deixar terreno livre para aquele que se tornou seu principal rival. Foi com algum distanciamento, para não dizer desconfiança, que acompanhou a adaptação do álbum "O Templo do Sol", que parecia ser o mais adequado para o cinema.

O roteiro foi escrito por Greg em parceria com Eddie Lateste, Jos Marissen e László Molnár. A trilha sonora foi assinada por François Rauber. O filme estreou na França em 13 de dezembro de 1969. Em Portugal, a estreia só ocorreu um ano depois, em 23 de dezembro de 1970. Com um baixo custo de produção e uma grande publicidade, foi um sucesso comercial, ganhando versões dubladas em diversos idiomas.

Filme x Álbuns

O filme tem como base os álbuns "As 7 Bolas de Cristal" e "O Templo do Sol", que fazem parte da mesma trama. Contudo, no roteiro adaptado por Greg (que também trabalhou em "O Lago dos Tubarões'), o primeiro álbum é comprimido em cerca de 20 minutos. Quase toda a ação de "As 7 Bolas de Cristal" é resumida em uma apresentação bem didática da maldição de Rascar Capac, seguida de uma cena no Castelo de Moulinsart - e não na casa do Prof. Bergamote (que aqui é chamado Prof. Tarragon), como no álbum - até o sequestro do Prof. Girassol.


Além de cenas excluídas, elementos inéditos também são incluídos no enredo, como a constante aparição dos espiões indígenas que são, logo de cara, responsabilizados - apenas para o espectador - pelos atentados aos membros da expedição. Outra alteração, visando o lado humorístico do filme, foi o aumento da participação de Dupond e Dupont, que fazem a jornada até o templo junto com Tintim e o Capitão, enquanto no álbum eles rodam o mundo guiados pelo pêndulo professor. Ah, também deram um jeito de colocar um helicóptero onde não existia...

Uma mudança desnecessária foi a criação de uma personagem que não está presente nos álbuns, Maïta, a filha do Grande Inca. A princesa mal tem tempo de se apresentar, mas sem ela não haveria nenhuma representante do sexo feminino no filme - a não ser uma ou outra nativa sem importância. Vale ressaltar que o roteiro teve aprovação de Hergé, então, não há muito o que questionar.


Opinião

Esta é, sem dúvidas, a melhor das três animações estreladas por Tintim e seus amigos. Apesar de não seguir à risca o enredo dos álbuns, é bem fiel em sua essência. A sequência inicial, explicando a exploração à tumba de Rascar Capac, é uma adição relevante. Mas há alguns diálogos, como o da primeira cena no castelo de Moulinsart, que são um tanto desconexos - não sei se pela tradução ou por falha do roteiro mesmo.

Boa parte das falhas do filme está justamente nas alterações feitas em relação ao original de Hergé. O humor pastelão dos Dupondt, que deveriam ter uma participação menor na aventura, nem sempre tem toda a graça esperada. Já uma cena que poderia ter sido esquecida, a do massacre dos crocodilos, ocupa muito tempo de tela. No que diz respeito ao "romance" de Zorrino, nem condeno a ideia totalmente. Mas se resolveram inserir um interesse romântico para o indiozinho, bem que a relação entre os dois poderia ter sido melhor desenvolvida...

No geral, "Tintim e os Prisioneiros do Sol" - como diz a narração dublada - tem mais pontos positivos do que negativos. Tecnicamente, a animação é boa, considerando a década e o local em que foi produzido. A trilha sonora também é bastante agradável, tanto é que virou disco. Para os tintinófilos da epóca, deve ter sido uma experiência sensacional. 

Curiosidades

:: A cena de abertura conta com um apresentador, que explica a uma plateia sobre a expedição Sanders-Hardmuth (que aqui vira "Hardman") e a maldição de Rascar Capac. A fisionomia é claramente inspirada em Hergé, criador de Tintim.

:: O Prof. Bergamote, o último explorador atingido pela "maldição do Rascar Capac", tem outro nome no filme: Tarragon. Girassol, cujo primeiro nome é Trifólio, é mencionado como Cuthbert, como na tradução inglesa.

:: Uma adaptação impressa com imagens extraídas do filme foi publicada a partir do número 41 da revista Tintin, em de 14 de outubro de 1969. Na verdade, era um tapa-buraco para compensar a ausência de novas criações de Hergé no semanário belga. A 17ª e última página foi publicada no número 6 de 1970, lançado em 10 de fevereiro. Entre as edições 4 e 8 daquele ano, a revista publicou uma série de matérias especiais intitulada "Le roman vrai de Belvision", sobre os bastidores do filme, apresentando fotos e entrevistas com a equipe.

Capa da edição 41 do Journal de Tintin e página 52 com a primeira parte da aventura extraída do filme.

:: Entre 1966 e 1973, Hergé não trabalhou em nenhum álbum inédito de Tintim. Ele teria usado como desculpa os preparativos para os filmes "O Templo do Sol" e "O Lago dos Tubarões". Na verdade, conta-se que ele teve pouca influência sobre a produção.

:: A versão nacional do filme, lançada em DVD, exibida na TV e agora disponível no Netflix, exclui uma cena de quase 3 minutos. Trata-se de uma canção entoada por Zorrino, "Ôde à la nuit". Não se sabe o motivo para o corte da sequência musical, composta por Jacques Brel.



:: O filme conta ainda com outra música, desta vez um dueto entre Zorrino e a princesa inca. Com um tom mais emotivo, "La chanson de Zorrino" é a única parte do filme que desenvolve, ainda que superficialmente, o sentimento romântico entre os jovens nativos. A inclusão de canções no longa pode ter sido um artifício para se aproximar das animações dos estúdios Disney, conhecidas por seus grandes musicais.


:: Na versão original, Zorrino foi dublado por uma mulher, Lucie Dolène, atriz e cantora francesa.

:: Tintim não usa calças de golfe, como nos álbuns originais, mas sim uma calça comprida marrom, similar à que apareceria em sua última aventura completa, "Tintim e os Pícaros".

:: O longa foi lançado em VHS no Brasil pela America Vídeo em 1988, com o título "Tintim e o Templo do Sol". Na época, o lançamento ganhou destaque no jornal Folha de S. Paulo.

: O filme está disponível na íntegra online através do YouTube. Clique aqui para assistir e veja também algumas artes conceituais dos personagens.

:: Confira o trailer original do lançamento no Brasil. Créditos: tujaviu.com.


:: Elenco de dublagem (francês e brasileiro):

Tintim - Philippe Ogouz: Oberdan Junior
Capitão Haddock - Claude Bertrand: Isaac Bardavid
Professor Girassol - Henri Virlojeux: Orlando Drummond
Dupont - Guy Pierrault: Darcy Pedrosa
Dupond - Paul Rieger: Márcio Simões
Zorrino - Lucie Dolène: Pedro Eugênio
Professor Tarragon - André Valmy: Leonel Abrantes Médico
Médico .- Serge Nadaud: Miguel Rosenberg
Homem gago - Jacques Balutin: Guilherme Briggs
Grande Inca - Jean Michaud: Carlos Seidl
Palestrante - Roland Ménard: Pietro Mário

:: O primeiro filme de Tintim, de fato, foi baseado no álbum "O Caranguejo das Tenazes de Ouro". A animação, em stop-motion, nunca foi lançada comercialmente nos cinemas. Saiba mais aqui.

Inclui informações do IMDb, Wikipédia e Journal de Tintin.
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25 outubro, 2015

Tintim no Cinema: O Caso Girassol

O Caso Calculus (L'Affaire Tournesol) é um filme de animação baseado no álbum "O Caso Girassol" e lançado em 1964. Trata-se, originalmente, de uma série dos estúdios Belvision em episódios curtos, agrupados em um único longa-metragem. Com aproximadamente 60 minutos de duração, o filme tem direção de Ray Goossens e roteiro de Charles Shows. Nunca foi lançado no cinema.

Sinopse

Vasos, janelas, vidros... em uma noite de tempestade, tudo está se partindo em pedaços no Castelo de Moulinsart. Seria a máquina de ultrassom do  Prof. Girassol a origem desses acontecimentos estranhos? Se o invento cair em mãos erradas, será um desastre. O único outro cientista que conhece o projeto, Prof. Bretzel, é sequestrado por agentes da Sildávia. Em viagem a Genebra, o Prof. Girassol é desaparece misteriosamente. Cabe a Tintim, Milu e Haddock partir em sua ajuda. Mas eles não estão fora de perigo...

Histórico

O título faz parte da série de TV  Les Aventures de Tintin, d'après Hergé. Foi dirigido por Ray Goossens (na foto, ao lado de Raymond Leblanc), roteirizado por Charles Shows e produzido pelos estúdios Belvision entre 1958 e 1963.

Como filme, "O Caso Calculus" reúne os 13 capítulos de 5 minutos que compõem o sétimo e último grupo de episódios, baseado no álbum "O Caso Girassol". Os capítulos foram grupados pela primeira vez para um lançamento em VHS.

Filme x Álbum

O roteiro faz várias alterações na história criada por Hergé. O filme exclui alguns personagens e modifica a essência - e até os nomes - de outros. Por exemplo: Serafim Lampião simplesmente deixa de existir; o Professor Topolino vira Bretzel e o Coronel Sponz, Brutel (ambos têm a aparência bem diferente dos quadrinhos); os dos detetives Dupond e Dupont ganham uma maior participação na trama, além de ter a aparência dos bigodes idêntica (e um helicóptero!); o Capitão Haddock troca o vício em uísque por café; não é feita qualquer menção à surdez do Prof. Girassol, que declara que sua pátria é a Sildávia - algo nunca confirmado por Hergé.


Opinião

Não há muito o que dizer sobre esta adaptação. Bom, pelo menos nada muito positivo. A animação é pobre, o que pode ser perdoado pelo fato desta ser uma produção para a TV da década de 60 feita fora dos EUA. O ano de produção poderia ainda justificar outras falhas, mas não o faz. O mínimo não foi feito: simplesmente não respeitaram a obra original. Hergé escreveu uma trama de guerra fria muito bem-elaborada, mas alterações desnecessárias tiraram o brilho do enredo. É clara a tentativa de "modernizar" as coisas, mas parece que a única forma encontrada para isso foi colocando um helicóptero onde fosse possível. Essa liberdade narrativa foi o que mais prejudicou a adaptação. O  roteiro tem pouco ritmo e a trilha sonora é anti-climática, simplesmente não funciona - quando aparece. Falta originalidade e graça, literalmente.


É claro que não vamos ser injustos: as circunstâncias, como a época, o local e os recursos de produção não favoreceram o filme. No formato original, eles só tinham 5 minutos para prender a atenção do público e ainda garantir que voltassem no próximo episódio, o que certamente prejudicou o resultado da obra (que não foi feita para ser um filme).

Em resumo, não é um filme bom para quem espera uma adaptação fiel à obra de Hergé - e nem para quem nunca leu o álbum. Contudo, vale a pena para quem quer conhecer uma das primeiras adaptações de Tintim para a TV, ou adicionar um item à sua coleção.


Curiosidades

:: A versão dublada em português não traduziu o nome do personagem-título, Girassol, para chamá-lo de professor "Calculus", conforme a tradução inglesa.

:: Além de mudar de nome, a história do Prof. Topolino, agora Bretzel, parece pegar carona em uma trama de "O Cetro de Ottokar", a dos irmãos Halambique - em que um gêmeo mau substitui o bom como parte de um plano maquiavélico.

:: Tintim tem uma carteirinha de membro do Club Tintin, que não nos revela seu nome completo.


:: O filme foi lançado em DVD no Brasil pela PlayArte em 2012 - saiba mais. Também já foi exibido por aqui nos canais HBO Family e TV Cultura.

:: A série original foi dividida em 13 capítulos:

L'éclair maléfique
Rayon "S"
Dans l'enfer
Rapt à l'ambassade
Le plongeur de la mort
Traqués
Panique à l'opéra
Course contre le feu
L'impasse
Branle-bas à la forteresse
Le feu aux poudres
L'évasion
Vers la liberté

.: A versão dublada em português mais uma vez resgatou as vozes clássicas da série da Nelvana:

Francês:
Tintim - Georges Poujouly
Capitão Haddock - Jean Clarieux
Professor Girassol - Robert Vattier
Dupont e Dupond - Hubert Deschamps
Milu - Roger Carel
Bianca Castafiore - Lita Recio

Inglês:
Tintim - Dallas McKennon ou Larry Harmon
Professor Girassol - Dallas McKenno
Demais personagens - Paul Free

Português:
Estúdio: De La Riva Studios
Elenco:
Tintin: Oberdan Jr.
Capitão Haddock: Isaac Bardavid
Professor Calculus: Orlando Drummond
Dupont: Darcy Pedrosa
Dupond: Márcio Simões
Coronel Brutel: Pietro Mário
Professor Breztel: Miguel Rosenberg
Bianca Castafiore: Geisa Vidal
Inspetor de polícia: Mauro Ramos
Diretor da prisão: José Santa Cruz
Apresentador de telejornal: Guilherme Briggs
Locutor: Pádua Moreira
Outras vozes: Carlos Seidl, Francisco José, Guilherme Briggs, Mauro Ramos, Miguel Rosenberg, Pietro Mário
Com informações do fórum Dublanet.
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08 outubro, 2015

Tintim no Cinema: O Lago dos Tubarões

Tintim e o Lago dos Tubarões (Tintin et le lac aux requins) é o segundo longa de animação baseado nos personagens de Hergé. Produzido pelos estúdios Belvision, que anteriormente já haviam trabalhado em uma série de desenhos e um filme animado estrelado por Tintim, o filme tem roteiro de Greg e direção de Raymond Leblanc. O filme, que tem aproximadamente 75 minutos de duração, estreou em 13 de dezembro de 1972.


Sinopse

Tintim, Milu e o Capitão Haddock viajam à Sildávia para visitar o Prof. Girassol, que está hospedado às margens de um lago misterioso. Os Dupondt acompanham a viagem, que logo de início é interrompida por um estranho desastre de avião. A salvação vem de um casal de crianças, Niko e Nouchka, e seu cachorro, Gustav. Uma intriga policial se desenrola ao redor do lago que dá nome à história. O lugar, na verdade, abriga o esconderijo de um poderoso e conhecido vilão, que está de olho na mais nova invenção do cientista: uma máquina capaz de reproduzir objetos. O plano do criminoso é usar o invento para fazer cópias perfeitas de obras de arte, e caberá a Tintim e seus novos amigos impedir isso.


Histórico

Depois de "O Templo do Sol", os estúdios Belvision decidiram trabalhar em um novo longa-metragem animado baseado nas aventuras de Tintim. Hergé resolveu não se envolver diretamente, mas designou alguém de confiança para escrever o roteiro: Michel Regnier, seu amigo pessoal, mais conhecido como Greg. A decisão de não basear o filme em um dos álbuns deu mais liberdade ao roteirista, o que livraria o filme de comparações com a obra original.

"O ponto de partida deste filme foi inspirado na realidade", explicou Greg (foto à esquerda). "Na época, aldeias inteiras foram submersas sem serem destruídas para a construção de barragens. Havia algo de fantasmagórico nestas aldeias engolidas onde tudo foi deixado inalterado, incluindo os sinais de trânsito... Todo mundo parecia achar que era normal, mas a mim, isso me fascinava." Com informações do Devil Dead.

O filme alcançou o terceiro lugar nas bilheterias belgas em 1972, perdendo apenas para "O Poderoso Chefão" e "Laranja Mecânica". O sucesso fez Raymond Leblanc comentar com um jornalista americano: "Até agora, houve apenas um estúdio no mundo capaz de produzir filmes de animação, e foi Disney. Mas agora, há dois".

Hergé e Raymond Leblanc.
A produção envolveu 150 pessoas, que trabalharam durante 15 meses. A United Artists planejou distribuir o filme nos Estados Unidos, mas, por algum motivo, desistiu. Será que, se tivesse estreado nos anos 1970 nos EUA, Tintim teria mais êxito por lá, ou a situação seria ainda pior?!

Inspirações

Apesar de não ser baseado em nenhum dos álbuns assinados por Hergé, o roteiro revisita momentos de algumas das aventuras de Tintim. Uma pérola é roubada de um museu e substituída por uma cópia, assim como acontece com o fetiche Arumbaya em "O Ídolo Roubado"; até o vigia do museu está lá, pode reparar. Tintim e Haddock vão à Sildávia a convite do Prof. Girassol, como em "Explorando a Lua". Depois, Tintim encontra Bianca Castafiore e pega carona com ela em uma estrada na Sildávia, semelhante ao que ocorre em "O Cetro de Ottokar", no primeiro encontro do repórter com a cantora. O submarino-tubarão do Prof. Girassol, que aparece em "O Tesouro de Rackham, o Terrível", volta a funcionar aqui, sob o comando do Capitão Haddock. Tudo isso sem contar elementos que veríamos apenas em "Tintim e a Alfa-Arte", como a falsificação de obras de arte e o retorno de Rastapopoulos.


Pode-se dizer também que o filme tem ligação com outra criação de Hergé, "Jo, Zette e Jocko" (Joana, João e o macaco Simão), uma série estrelada por um casal de irmãos e um chimpanzé de estimação. No longa, o trio é substituído por Niko, Nouchka e seu cachorro Gustav. Mas as semelhanças não param por aí: em "O Manitoba não Responde", publicado em 1936, Jo e Zette são prisioneiros de um cientista maluco em um esconderijo embaixo d'água e usam um carro (tanque) anfíbio para escapar, assim como acontece em "O Lago dos Tubarões". Na sequência, "A Erupção do Karamako", também há uma cena em que os heróis precisam escapar do afogamento e da ameaça de explosão causados pelo vilão.

Adaptação para os Quadrinhos

No ano seguinte ao seu lançamento, 1973, o roteiro foi adaptado para um álbum em quadrinhos de 44 páginas. Sem levar a assinatura de seu criador, a obra foi produzida pelos Studios Hergé. O jornal Le Soir publicou as tirinhas em preto-e-branco entre dezembro de 1972 e janeiro de 1973. De acordo com o site Naufrageur, uma versão em cores foi publicada simultaneamente no Journal de Tintin. Esta versão, com imagens retiradas do filme, foi a mesma utilizada para o álbum. O visual é bem diferente dos álbuns oficiais, com cenários e backgrounds no estilo filme, e personagens redesenhados e coloridos. Uma mistura que distancia a obra do clássico estilo de linha clara das obras originais de Hergé.

O álbum do filme foi publicado em português, respectivamente, pelas editoras Record (1975), Verbo (1997) e Público (2004). Também apareceu na revista portuguesa "Tintin" em 1976.


Opinião

O filme deve ter sido bem divertido na época que foi lançado. Hoje, vale assistir pela curiosidade de ver uma aventura inédita de Tintim. O roteiro não se compara à genialidade das obras oficiais de Hergé, é claro. Tem seus bons momentos de suspense e humor, não posso negar, mas, no geral, é uma história superficial. Infantil, com algumas situações que forçam a barra (tanto no humor como na "ação"), o longa conta com uma boa animação, considerando que foi feito por um estúdio relativamente pequeno, e fora dos Estados Unidos. Os efeitos aquátivos são criativos - a câmera mergulha e emerge com frequência - e os movimentos dos personagens são bem-executados - as cenas de golfe são um bom exemplo disso. A trilha sonora agrada, apesar de fazer falta em muitas cenas que são simplesmente "mudas". As canções de Niko e Nouchka são de dividir opiniões, sem dúvidas - digamos que 'eu gosto do meu burro e ele gosta de mim' não é das composições mais inspiradas... Em resumo, a ideia do filme é boa, tornando "Tintim e o Lago dos Tubarões" um item obrigatório para colecionadores, mas que não serve para introduzir ninguém ao universo de Hergé. Afinal, não é um legítimo Hergé.


Curiosidades

:: Este foi o último filme de Tintim antes da adaptação de Spielberg, lançada em 2011.

:: O bilionário Lazlo Carreidas, do álbum "Voo 714 para Sydney", é visto na cena do aeroporto, no início do filme. Na mesma cena, uma funcionária faz a chamada dos passageiros "Tintim, Milu e Haddock". Será que o fox-terrier também tem passaporte?

:: É interessante notar como o Prof. Girassol está sempre à frente de seu tempo. Seja pisando na lua antes de qualquer homem, seja criando a televisão a cores, o cientista não cansa de inovar. E aqui não é diferente: além de um projetor de imagens em 3D (holograma?), Trifólio cria uma espécie de impressora 3D (na verdade, uma fotocopiadora 3D). É ou não é um gênio?

A cobiçada máquina de cópias em 3D do Prof. Girassol
:: Dúvida (1): O motorista de Bianca Castafiore é o seu pianista, Igor Wagner? Não sei, porque apesar da semelhança, aqui ele se chama Walter...

:: Dúvida (2): Por que os vilões têm a mania de não concluir logo o serviço e sempre deixam uma brechinha para o mocinho escapar? Por que Rastapopoulos tem que dar uma hora para Tintim se safar antes da explosão do vilarejo submarino?


:: Segundo o Blogue de BD, o filme foi lançado no extinto Cinema Condes, de Lisboa, Portugal. A adaptação para os quadrinhos foi traduzida para o português após os esforços do editor José Luis Fonseca. Quando os álbuns esgotaram e a editora Verbo quis reeditar, os detentores dos direitos da obra de Hergé inexplicavelmente recusaram.

:: Um álbum de cromos com cenas do longa foi lançado em 1973 pela Agência Portuguesa de Revistas e distribuído pela A.F. Victor, de Lisboa. Com 28 páginas, 182 cromos e um pôster central. Foi reeditado em 1983 pela Distri Editora, de Portugal, em parceria com a RGE, do Brasil (o que faz crer que o álbum também foi lançado por aqui), em formato menor, com 36 páginas e o mesmo número de cromos, agora autocolantes. Veja mais imagens nos blogs Caderneta de Cromos e  O Tintinófilo.

:: O filme foi lançado em DVD no Brasil pela PlayArte em 2012 - saiba mais, e chegou ao serviço de streaming Netflix em outubro de 2015.

:: A versão dublada resgatou algumas vozes originais da animação da Nelvana. Confira a lista do Dublanet:

Estúdio: Delart.
Elenco:
Jacques Careuil (Tintin): Oberdan Jr.
Claude Bertrand (Capitao Haddock): Isaac Bardavid
Henri Virlojeux (Professor Girassol): Orlando Drummond
Guy Pierrault (Dupont): Darcy Pedrosa
Paul Rieger (Dupond): Márcio Simões
Serge Nadaud (Rastapopoulos): Ionei Silva
Jacques Vinitzki (Niko): Patrick de Oliveira
Micheline Dax (Bianca Castafiore): Geisa Vidal
Locutor: Pádua Moreira
Outras vozes: Jorgeh Ramos, Miguel Rosenberg

Hergé contempla uma arte do filme.
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11 janeiro, 2012

Tintim no Cinema: O Primeiro Filme


Tintim chega aos cinemas de todo o mundo mais de 80 anos depois de sua primeira publicação. Mas a ideia de transferir as aventuras criadas por Hergé para o cinema começou antes mesmo que o repórter completasse 20 anos, no final dos anos 1940.

Em 1947, a revista "Tintin" anunciou em uma página inteira (à esquerda) o lançamento da primeira animação baseada nas aventuras do intrépido repórter belga. No dia 8 de maio do ano anterior, Hergé havia vendido os direitos de adaptação do álbum "O Caranguejo das Tenazes de Ouro" (1941) a um tal Wilfried Bouchery.

O contrato assegurava que Hergé manteria o controle artístico sobre a história e seus personagens, e uma adaptação fiel ao original começou a ser produzida. Bouchery contratou os Studios Claude Misonne, do casal João Batista Michiels e Claude Misonne, conhecidos por seu trabalho em stop-motion, especialmente para publicidade.

O começo do projeto foi marcado por problemas financeiros: Missone e Michiels não foram pagos por Bouchery, e Hergé perdeu a fé no produtor, o que causou a interrupção da produção. Mesmo assim, o filme foi finalmente concluído e, em 11 de janeiro de 1947, a primeira adaptação de Tintim para as telas foi apresentada no cinema ABC de Bruxelas, para um grupo de convidados especiais. A segunda e última exibição aconteceu em 21 de dezembro do mesmo ano. O motivo: Wilfried Bouchery havia acabado de declarar falência por causa de fraudes e, como não pode pagar suas dívidas, teve de fugir para a Argentina, levando a Justiça a apreender as bobinas do filme.

João Batista Michiels durante as filmagens

Durante anos, a cópia original (em francês) do filme de Claude Misonne e João Batista Michiels foi dada como perdida, restando apenas a versão dublada em inglês. Re-encontrada há cerca de vinte anos, o filme original agora faz parte do acervo do Cinèmathéque Royale da Bélgica, onde os privilegiados poderão desfrutar de sessões privadas. O filme também pode ser visto por membros pagantes do Club Tintin, no site oficial do personagem, e uma versão em DVD foi lançada em maio de 2008 na Europa.

:: Curiosidades:

  • Este trabalho é considerado o primeiro por duas razões: além de ter sido a primeira adaptação de um álbum de Tintim, foi também a primeira animação produzida na Bélgica.
  • O filme alcançou um público de 2 mil pessoas em sua primeira exibição.
  • As cenas da animação foram gravadas quadro-a-quadro. Foram necessárias 24 tomadas por segundo, para garantir o movimento e as expressões faciais dos bonecos.
  • Assim como Hergé havia exigido, o filme respeitou fielmente o álbum homônimo, exceto pela exclusão do ataque sofrido por Tintim e o Capitão Haddock no deserto.
  • Por falta de financiamento, algumas cenas não são animadas, como o cenário usado para ilustrar o porto de Bagghar, onde o Capitão encontra o Karaboudjan. Para aquelas cenas, os produtores copiaram trechos reais de documentários que mostram o porto de Antuérpia.
  • Nem a crítica nem o próprio Hergé aprovaram a animação. Em uma carta ao produtor, o criador de Tintim citou o que o incomodava: os fios que conduziam os bonecos eram muito visíveis, os camelos no deserto não foram ágeis o suficiente e duas cenas foram muito longas.
  • Graças à decepção causada pelo filme, Hergé recusou a proposta de um estúdio francês de levar Tintim novamente às telas, em forma de desenho animado.
  • O artista acreditava que só nos Estados Unidos seriam capaz de traduzir o espírito de Tintim para o cinema, por isso, em 1948, Hergé propôs uma colaboração a Walt Disney. A parceria nunca aconteceu, mas Hergé recebeu uma homenagem exclusiva do estúdio do Mickey.
  • A história do filme é quase fiel ao álbum, não fosse a omissão das cenas passadas no deserto, que inclusive dão capa ao álbum. Os animadores foram cuidadosos ao usar os quadrinhos como um storyboard para o filme, apenas ocasionalmente tendo liberdade com composições originais de Hergé.
  • Uma cópia do filme está disponível para download aqui. Direitos autorais desconhecidos.
:: Mais imagens:

Capa do DVD lançado em 2008.

Programa do filme.

Primeiro cartaz do filme.

Uma cena do filme, onde Tintim contracena com os Dupondt.

Cartão reproduzindo a cena inicial do filme.

Com informações dos sites Tintinophile, Tintin est Vivant, Wikipedia e Tintin.com.
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Veja também

Veja também
Site oficial de Tintim

Arquivo TPT